“São arquiteturas que expandem necessidades humanas legítimas em circuitos de engajamento economicamente exploráveis.”

Vozes que atravessam a pesquisa
Pesquisadores, filósofos, médicos e jornalistas que ajudam a entender o que está em jogo no futuro das conexões humanas.
“Esse tempo nas telas representa nada menos do que 157 dias por ano. Mais de cinco meses olhando. Quase 60% do tempo acordado, eu estou deslizando o dedo.”
“Todo grande salto tecnológico provoca uma sensação de esvaziamento. Mas, hoje, a tecnologia virtual reorganiza mais do que a minha ação física no mundo. Está reorganizando o meu desejo, a minha linguagem e a minha sensação de intimidade.”
“Quando você coloca uma ressonância magnética funcional de indivíduo dependente de opiáceo, e você pega indivíduo dependente de telas, 95% da circuitaria é a mesma que está ativa. Nós estamos falando hoje de novas categorias de vícios ou de dependências.”
“A grande característica da virtualidade é que a gente não tem marcadores de passagem. O rolar infinito da tela, sem fricção nenhuma, cria um sentimento de nunca finalizado. E aí eu fico naquela angústia perpétua.”
“Nós somos hoje seres de produção buscando espaço vazio. O tempo a sós, ele virou algo meio que proibido. Você tem que estar conectado, respondendo, online, fazendo, postando.”
“Você passa o dia inteiro na frente do computador trabalhando. Quando para de trabalhar, o que é que você vai fazer? Mexer no celular. A longo prazo, os efeitos começam a aparecer: você não consegue se concentrar da mesma maneira, sente que não tem criatividade para nada e não consegue processar informações um pouquinho mais complexas.”
“Se a gente pensa nessas figuras, no gamer compulsivo, no investidor de bets, no trader das previsões, no tesão da pornografia online… Não vemos pessoas que estão, necessariamente, totalmente entretidas e muito satisfeitas com o que elas estão obtendo, mas sim presas nesse circuito de busca compulsiva pela satisfação.”
“Esse eu sintético começa a determinar uma personalidade digital, transformando a sua conduta e os seus 'mores' — que vem do grego e diz respeito aos usos e costumes —, que é a própria moral. As gerações novas perderam ou estão perdendo a interpersonal skill, que é a habilidade de se relacionar com o outro.”
“Tivemos parte da nossa psique terceirizada para devices externos. A nossa relação com o mundo foi instrumentalizada.”
“O crescimento das relações parasociais redefiniu a ideia de fandoms, celebridades e, com a IA, a forma como pessoas comuns interagem online.”
“Ao trocar a bagunça complicada das relações humanas pelo companheirismo pet, livre de adivinhação emocional, perdemos o benefício essencial das conexões: aquilo que não podemos controlar.”
“Com a hiperconexão, o corpo está à serviço de consumir, seu corpo já não é mais seu. Se você entende e retoma o controle dele, você passa a não ser mais um algoritmo. É a opção por uma vida menos informacional, e mais presencial.”
“A gente precisa aprender a sustentar essa tensão. E prosperar nesse paradoxo. Porque essa contradição permanente existirá. O futuro das conexões humanas é da gente localizar a tecnologia no lugar dela sem negligenciar a presença.”